Scoundrel Days   -   1986


" You want to lose the weight of the wind /
Rests hard on your shoulders / Bringing you down "

Trabalho prova de fogo, foi lançado no Natal de 1986. Se é verdade que o segundo disco é a contraprova de sucesso do primeiro, então o a-ha pisa fundo , rodeia-se de técnicos e produtores e, em vez de curtir a fama que conquistara com o sucesso de "Hunting high and low", entra em estúdio para lançar " Scoundrel days ".

Falando em fama, nada estava mais favorável para o a-ha naquele ano. Em 1986, era eleita para a melhor banda pop do mundo, Morten o melhor vocalista, seus vídeos começavam a trilhar a estrada do sucesso permanente, seus shows eram apontados como "impecáveis" - como descreveu a Bizz em seu poster especial ou " brilhante" - pela Smash Hits ; foram para eles sete prêmios da MTV EUA 1986 o Grammy  de melhor novo artista , os jornalistas coletavam material para lançamentos de livros sobre a banda -tais como o inglês Tom Jackson ou o sueco Sven Vallally ,além das capas das principais publicações de música como a Viva Rock, Music Life e outras. Enfim, o a-ha agora procurava solidificar o que construíra com seu álbum anterior.

A produção de Scoundrel days  é assinada por Alan Tarney, mas também por Pal e Mags. A qualidade do primeiro disco é mantida, porém as músicas ganham uma atmosfera mais pesada, mais fechada, em canções como a título," Scoundrel days", "The swing of things"  e "I' ve been losing you". Nada é à toa : estas são as três primeiras faixas do disco, logo, o impacto da mudança é sentido de cara. E não para por aí : " October", "Manhattan skyline" e " Soft rains of April" seguem como exemplos -apresentando temas humanos como a solidão, a saudade de casa, as barreiras de um mundo imenso, difícil.

Ainda que grande parte do disco apresente esse ponto de maior seriedade, o a-ha consegue espaço para sons mais leves(ou disfarçadamente leves, já que "Cry wolf" tem uma vestimenta dançante e no entanto retrata o massacre de lobos na Noruega). Também "We're looking for the whales", com a indagação de que procuravam as baleias -caçadas indiscriminadamente na Noruega. Na realidade,estas músicas são protestos feitos sem que a banda precise ir à TV e jornais bancar os mocinhos preocupados em ajudar a causa...A mensagem é enviada, mas fica subentendida, afinal, eles "celebram o mistério".As letras, mais quebra-cabeças do que nunca, se tornam até mesmo reflexivas e, disparada, "The weight of the wind" encabeça a lista. Ou "Scoundrel days"...

Como hits estourados, além de "Scoundrel days", foram "Cry wolf", "Manhattan skyline" e "I've been losing you". Quatro canções, quatro estilos diferentes de composição da dupla Furuholmen / Waaktaar. Já Morten Harket não compõe nem participa da produção, mas compensa assumindo todos os vocais do disco, o que não é tarefa nada fácil. Com o trabalho de Morten, qualquer faixa se torna um belo exemplo de perfeição e, assim sendo, não  pode-se deixar de falar em "October", "Scoundrel days"," The weight of the wind" e "Soft rains of April" cujas interpretações são impecáveis. Um disco completo.


( Análises das músicas com base  principalmente nas faixas originais. Faixas mixadas, extended , lives e demos  foram adicionadas como enriquecimento. As faixas trazem ainda rápida passagem pelas interpretações das letras)
 

SCOUNDREL DAYS

Para quem ouve "Take on me", a 1ª faixa do 1º cd, e depois  "Scoundrel days", a 1ª deste segundo, sente, no mínimo, uma diferença impactante...
"Scoundrel" tem uma atmosfera bem mais fechada...A interpretação de Morten confirma o vocalista perfeito que ele é, sem limites para interpretar. Ele vive de fato a letra da música, que é tensa.
Parece uma situação em que o personagem  encontra-se angustiado, e tenta escapar, sem nunca conseguir , como se constata facilmente :" ergo minha cabeça de travesseiros incômodos/um mau pensamento corta meu pulso/e vou até a porta/sinto o suor escorrendo para minha boca/eles não me dão escolha". Vê-se aí um homem ameaçado, que tem sonhos conturbados, e nada pode fazer para aliviar o desconforto. Sem ajuda, ele é um condenado prestes a explodir ,e tem no suicídio sua única saída. Ele corta os pulsos e sofrendo muito, é alcançado pela morte, "em dias difíceis". A morte aqui para ele é libertadora. A única coisa que poderia salvá-lo.A presença dos violinos dá à música um som mais grave, dando esta idéia exata de apreensão ou suspense que cerca o universo de "Scoundrel days"...E, se esta já é uma música forte no disco, ao vivo esta força cresce três vezes em função dos maravilhosos solos de guitarra de Pal. Magnífica.

 

THE SWING OF THINGS

Uma das letras mais importantes do a-ha. Aqui, estar em sintonia com o mundo é preciso. Porém, num mundo acidentado, cheio de problemas, e cujo ritmo é de perder o pulso, encaixar-se nele pode ser doloroso, e o movimento é para frente, nunca para trás.Dentro desta angústia, vem as lembranças dos bons tempos com alguém importante para ele -que o aconselha dormir e esquecer um pouco de tudo. "Mas como vou dormir com tua voz em minha mente/e um oceano entre nós/e um espaço vazio em minha cama?" É a pergunta. Tudo porque ele precisa da presença dela para espantar suas aflições, e ele sabe que precisará disso sempre. Ele não tem a consciência do que fez e provocou para estar tão confuso. E solitário.Uma situação comum às pessoas : estar só e precisar da ajuda de alguém. Provavelmente que toda a pressão sofrida pelo a-ha para que o 2º cd justificasse o sucesso do 1º tenha transparecido nas letras-sobretudo as de Pal, já que Mags foge um pouco dessa linha. Solidão e angústia estão presentes sempre. E como a letra vai de mãos dadas com o som, temos um som mais seco, sem tanta melodia, e com poderosos vocais! Ouve-se bastante bateria num som tranquilo. Uma novidade, que nem sempre acontece no som do a-ha.

  

I'VE BEEN LOSING YOU

Bem redigida, trabalha com imagens. Aliás, uma marca registrada do Pal.Houve um assassinato que alguém cometeu mostrando toda sua crueldade e premeditação, de acordo com os versos :"(...) deitando o revólver sobre o criado mudo/devo ter percebido: não foi a chuva que deixou de fazer diferença/e eu poderia jurar que não fui eu/ainda assim fiz tudo com tamanha frieza/quase devagar..."Obviamente ele precisa da ajuda de alguém que converse com ele, lhe diga coisas úteis, porque ele está perdendo seu rumo e a quem ele ama também.A pergunta "como posso parar agora?" demonstra uma pessoa atordoada, que não consegue sair de algo que o prende, e ele sabe disso ("não haverá nada que eu possa fazer?). Logo vem o remorso, quando ele  lembra-se dos gritos competindo, das pronúcias das palavras("você sibilando os "esses"como uma cobra)da fala que ficou com ele,em pensamento.Na sua condição de aflito, ele vê a metade de um homem--ele mesmo--, que supunha, era invencível. Com o desespero, tenta fugir, mas sabe que cometeu um erro e espera ser punido."I've been losing you" é para aumentar o volume e curtir, curtir, curtir. A música é um impacto do início ao fim, passando por aquela paradinha de todos os instrumentos para depois retomar com o baixo e a bateria. E isso sem esquecer Morten arrebentando mais do que nunca nos vocais.

 
OCTOBER

Sozinho, sentindo a falta de uma pessoa que está distante, perambular pelas ruas significa uma tentativa de suprir esta falta. Porém, com o fim do verão, os ventos frios que sopram à noite trazem de volta a memória desse alguém, porque, onde ela está, os ventos também sopram.Ele se recorda do que ela lhe disse :"não seja solitário". E tenta ignorar a solidão (o que, para um romântico, não é nada fácil). Só que o tempo mostra que ele ainda preferiria estar com ela.Não pode-se deixar de falar na introdução. Todos aqueles efeitos deixam um certo mistério no ar, até termos a surpresa da canção, extremamente suave. Mags trabalha com os solos ao fundo e requer atenção para poder escutar."October" é toda de acordo com esse cenário, o ritmo lento, e a preciosa colaboração de Morten, mais uma vez...Morten fez desta música sinônimo de arrepio!!!

 

MANHATTAN SKYLINE

Uma despedida num cenário chuvoso, mais uma vez. "Sentamos e assistimos aos guarda-chuvas voando/Estou tentando manter meu jornal seco". Ao que se percebe, ele sente a dor da separação, mas DEVE partir: "não quero chorar de novo/não quero dizer adeus/não quero correr contra esta dor".Ele parece seco, deixando-se levar, mas aceita a dor muito bem, e até gosta dela. Porém partir é uma necessidade mesmo : a canção que ele lembra diz adeus, o vento e a chuva pedem o adeus -ainda que ele não queira cair, sofrer, sentir dor. E nem quer ver seu amor ferida. Mesmo tentado ficar, ele quer novos rumos no horizonte de Manhattan. Ou seja, ele não tem escolha.Escutando a faixa nota-se que a sintonia é tão perfeita que a mistura da balada com o rock faz sentir-se harmonicamente ,mesmo tendo viradas bruscas , como em sonho e realidade. Uma música que  só pode ser qualificada como "precisa".

 

CRY WOLF

Para entender "Cry wolf" é preciso voltar à 1985, quando, na Noruega, lobos circulavam numa aldeia. Aterrorizados com a presença dos animais, os habitantes do lugar se refugiavam em suas casas sem que pudessem sair, pois temiam serem atacados. Então, um caçador norueguês  propôs-se a perseguir os lobos, e acabou massacrando todos eles ,incluindo uma loba fêmea que acabara de dar à luz mais filhotes.Pelo feito, o caçador foi parar nos jornais, e exibia os corpos dos bichos com orgulho. Tal fato gerou alívio e ao mesmo tempo revolta por tamanha crueldade."Cry wolf" é como um relato dessa história verídica em versos como : "Ele veio de uma terra onde os ventos sopram gelados e a verdade é vista através de buracos de fechaduras/ânsias e medos estranhos nunca dormem/agora ele chegou a um ponto onde nenhum coração bate". Esta é a estrofe que refere-se ao caçador. "Grite, lobo" é como que esboçasse uma reação para aquele que está encurralado : começa e não pode parar, entra e não pode sair. O grito do lobo é a defesa de sua vida."Cry wolf" é também uma expressão empregada na história do garoto que gritava estar sendo atacado pelo lobo e quando iam acudir, era brincadeira--até o dia em que o lobo realmente veio e o menino foi devorado. Porém aqui, esta mesma expressão é usada como forma de protesto. Dados os fatos, a primeira versão afasta-se dos mesmos e destoa da letra. Ler e conferir.
No que diz respeito ao som, é um grande embalo -tocou nas pistas do mundo inteiro. Descontraído ritmo para um tema sério. Paradoxal é, mas inegavelmente explosivo. Morten, de tão inspirado, termina a música meio que imitando um lobo(há necessidade de aumentar o volume para ouvir melhor) e , curiosamente, é sempre a canção que abre os shows do a-ha. Composta por Mags, tem um timbre denso, com ênfase no baixo.Na bateria, uma surpresa: Oystein Jevanord ,companheiro de Pal e Mags no Bridges!!!

 
WE'RE LOOKING FOR THE WHALES

Foi escrita no período em que as baleias estavam sendo perseguidas mais intensamente(a Noruega tem ainda hoje sérios problemas com a caça às baleias) e a letra é uma observação de seu movimento : "uma que afundou deixou duas que subiram/parecem tão difíceis de encontrar..."
Assim como procuram as baleias, procuram também uma garotinha perplexa, que procura por eles, solitária.Eles(Pal, Mags e Morten ?) tem a inquietude nos genes ,sabem o que está se passando ,pois "nascemos neste mundo com os olhos bem abertos". E há anjos , que estão à volta, "do lado de fora das tuas portas" e que podem ajudar."We're looking for the whales" é uma badala dançante ,na qual o a-ha ainda explora sua bela melodia.

 
THE WEIGHT OF THE WIND

Ele tenta tocar novos horizontes, assim como outro alguém que perde a pessoa amada e tenta esquecer o que passou de ruim--exatamente o que seria "o peso do vento".Então é necessário perder este peso, esquecer as possíveis dificuldades a enfrentar ("vê os braços deles, serpenteados, entrecruzados/tão claro e cruel/em tua mente ciumenta") e prosseguir , pois quem se ama jamais será encontrado e o que resta é conformar-se. Por um lado, conformar-se é uma aceitação que está longe de propor uma luta, e sim um esquecimento. Por outro, tocar novos horizontes significa lutar...Paradoxo, paradoxo...Mags trabalha bem. No meio da música ,aquele instrumental mais prolongado é ótimo. Por fim, um som forte, letra forte, vocais fortes. Toda uma sensação de força.

 
MAYBE MAYBE

Da autoria de Mags, é uma daquelas canções do a-ha cujo significado está subentendido, mas tem uma "capa" bem descontraída para que se precise "caçar" a polpa."Maybe maybe" ,a começar pelo título, é só dúvidas. Temos um relacionamento , em que ele leva um fora, dá um fora, é jogado para fora do carro em alta velocidade e por estas circunstâncias, tenta convencer a si mesmo de que o fim chegou, que poderia ter agido "tão errado" ,e aceita o término com a seguinte frase :" não sei, mas dizem, que as decisões viajam uma longa distância do coração à cabeça". Noutras palavras, a emoção impede de enxergar o que realmente está acontecendo. É preciso amadurecer muito para chegar à entender a razão. Logo, havia evidências de que tudo estava acabado , e ele não quis acreditar ,daí a dúvida : os fatos ocorrem, mas poderia estar errado pensando assim. "Yes, I could be wrong" , quer dizer que ele PODERIA estar errado. Não estava.
Como eu já disse anteriormente , um tópico ou assunto mais sério vem com uma capa descontraída. É impressionante como essa fórmula funciona com o a-ha. Eles mandam a mensagem, só que você precisa estar atento para codificar...Fantástico! Tá bem dentro da filosofia deles.A versão demo dessa música é muito boa.

 
SOFT RAINS OF APRIL

Muita melancolia, a saudade de sua terra natal (o que é perfeitamente compreensível quando se parte do ponto em que o a-ha é norueguês e vivia na Inglaterra na época em que a música foi feita).O sentimento de saudade é tão forte que explicitamente aparece na letra: "Tem alguém em casa agora?/Por favor, estou no telefone/Eu gostaria de voltar". A ansiedade também aparece noutro trecho em que o "tempo passa tão devagar" e ele ainda deve esperar por anos pela volta.Tem-se a impressão de que as chuvas suaves de abril trazem alguma lembrança da vida na Noruega(onde pelo menos o tempo é sempre fechado).
Outra canção fortíssima, séria e bem trabalhada. Morten impressiona, parece que vivencia cada verso. Não que isto não aconteça sempre ,mas aqui tem uma ênfase maior. E Mags usa seu piano para novamente a-hasar....