Stay on These Roads   -   1988

        " Permaneça nestas estradas"
O a-ha inicia a fase de sua consolidação como astros pop de primeira grandeza com " Stay on these roads " A banda está no seu terceiro disco e também no terceiro ano de carreira.Desde "Scoundrel days", Pal, Mags e Morten não entraram em estúdio(a não ser para a gravação de "The living daylights" -tema do filme de 007 " Marcado para  a morte", em 1987) e, os dois anos sem gravar já indicava o ritmo que o a-ha adotaria dali para frente: a banda não procuraria agradar a nós fãs ou quem quer que fosse de outra maneira que não pela música.

O a-ha agora era uma banda reconhecida internacionalmente, com sucesso mundial , que vendendo milhares de discos , definitivamente começava a controlar diversos aspectos de seu trabalho ,como justificaria Pal no ano seguinte : "Com a gente é assim: controlamos tudo. Se algo dá errado, somos nós quem pagamos isso".

Felizmente nada dá errado  : "Stay on these roads" -  cuja produção é assinada por Alan Tarney - vem arrebentando com 5 hits "The blood that moves the body", "Touchy", "The living daylights" e o sub-título(?) "There's never a forever thing". O a-ha com estes hits ocupava mais uma vez os charts internacionais . Somente nos EUA, foram vendidos 2,5 milhões de cópias de "Stay on these roads" - lançado em junho de 88. Em outubro do mesmo ano, em Los Angeles, o a-ha recebera seu disco de platina dupla. Vai para a capa da Number One . Na Itália, a visita do a-ha ao Festival de San Remo é o maior sucesso - assim como sua participação no festival dinamarquês MidtSummer . Na votação anual promovida pela revista BRAVO , da Alemanha, o a-ha vencera U2, Michael Jackson e Pet Shop Boys nas categorias de melhor banda , melhor álbum e melhor show . Na França, em 1989, é lançado o livro " Vikings du Choq"  . A Smash Hits inglesa os estampa em suas publicações novamente e, em países como o Brasil, o a-ha , antes mesmo de vir ao país, possui enorme popularidade -que confirmaria-se pela votação quanto aos melhores de 88 feita através da revista Bizz em que o a-ha foi votado como a segunda melhor banda do mundo - com direito a Morten na capa da publicação a pedido dos fãs . Finalmente, a primeira visita  furiosa da banda ao Brasil em março de 1989 fecha o panorama de seu sucesso  também naquele período.

No universo de "Stay on these roads" , quase que de modo imperceptível (não para um fã astuto!) o a-ha passa a colocar ,em meio ao seu som mais tradicional , algumas canções que contém um pouco mais de instrumentação , como num efeito "live". Ouve-se isso em "This alone is love" e também em "Out of blue comes green" e, tanto a sensação está correta que Pal Waaktaar, ao refererir-se ao que viria a ser " East of the sun West of the moon" em 1990 , afirmara para o "Diário de Bordo" da revista Bizz que a forma que o a-ha buscaria para seu próximo CD seria justamente mais... "live" !!!

Se em "Scoundrel days" eles resolveram maquinar o raciocínio de cada um nas letras , aqui continuam, e mais : variando temas , como volta para casa, namoros, consolos, momentos difíceis,de um modo não menos fascinante.

 ( Análises das músicas com base  principalmente nas faixas originais. Faixas mixadas, extended , lives e demos  foram adicionadas como enriquecimento. As faixas trazem ainda rápida passagem pelas interpretações das letras)

STAY ON THESE ROADS

Novamente a presença das raízes norueguesas...O frio conversa com ele. A voz do frio é o inverno, que o chama em casa, portanto,  ele deve voltar. E o frio é sábio: o homem velho, experiente, sente o frio. A criança não. Neste sentido, "o homem velho sentir o frio " é obedecer o frio. A criança não pode fazer isso porque ainda não sabe discernir o que o frio quer. Essa voz do vento é tão importante que está de fato na música, acompanhado de um solo delicado.A voz do frio é uma guia que enfraquece quando o amor obscurece ,e, se ela estiver fraca, encontrarem-se nestas estradas será impossível. Então ela precisa estar forte e confiar...
Este recurso de utilizar o frio como uma voz, como guia, é algo muito criativo. Na verdade o frio faz com que ele se recorde de sua casa, e que, de tão intenso, faz querê-lo voltar. Porém ele ama alguém que precisa continuar em seu caminho.
A melodia é uma das mais belas, em durante muito "Stay on these roads" fechou os shows do a-ha.Mesmo sendo substituída ao final por "dark is the night",ainda acredito que quem deve permanecer nas estradas somos nós, fãs,mesmo passando pelas "noites escuras para todos".

 
THE BLOOD THAT MOVES THE BODY

Interpretação difícil. O que dá para entender é que há um casal se estranhando numa determinada noite--sendo envolvidos por uma sensação de que tudo é irreal. Talvez por ele estar literalmente ferido: " reagirei ao sangue que move meu corpo e que agora cobre o chão".Logo, não há lugar para ir aquela noite. É quando ele pede a ela que empreste "um pouco de calor a nossas vidas frias e solitárias" , pois assim ele superará as dores para que tudo fique bem.
Porém o relacionamento deve ter sofrido abalos: "o amor e o carinho, o jeito como éramos, se perdeu nas noites". Ele continua pedindo a ela que volte para o amor deles, mas desta vez ela também está ferida, ambos de fato tem um ferimento grave e precisam reagir.
Pelo enredo da letra, subentende-se que ele pode ter tentado algo mais drástico para impressioná-la, o que pode ser reforçado pela sensação de irreal. Como ela pode ter reagido contrariamente ao que ele esperava , o drástico teria sido uma tentativa dele atirar nela e depois se matar!!!Se a intenção de Pal foi esta, o "sangue que moveu nossos corpos e que agora colore o chão" foi em função do inconformismo de perder a quem se ama.Ou ainda, que mentes doentias podem chegar a extremos.
Por esta interpretação, a letra se torna violenta, e requer bastante raciocínio para "matar" a questão. Ainda assim, fica a dúvida se Pal realmente pensou isso, um homem se sentindo como um cão triste ... Intrigante!
A música está fundida com a letra: já na introdução, tem-se um certo suspense que segue a faixa inteira, predominada pelo baixo.Infelizmente,foi cortada do repertório na turnê de 2000,"Minor Earth/Major Sky".

 
TOUCHY

"Donna" provavelmente era uma amiga ou antiga namorada que ficou muito feliz em revê-lo.Quando se encontram novamente, num restaurante, ele observa o quanto ela está mudada, mais madura.
Ao dizer que ambos são sensíveis, e que ela sabe o que fazer, não há outra saída senão a de enfrentar os fatos --e não há espirro que o livre disso!!!Logo, o encontro vai longe demais e ele talvez tenha que ir embora, porém ela quer que tudo se explique por si só, e o que pode ter significado.
"Touchy" foi estourada nas rádios, tocando sempre. Não tem um tema forte, nem é um som habitual do a-ha. Na verdade, é mais tecno do que pop. A execução ao vivo é muito superior à do cd. Sem dúvidas, é mais a-ha.

 
THIS ALONE IS LOVE

Transmite uma paz de espírito que contrasta com sua letra : "...E todos nós/que estamos viajando por alçapões/nossas almas são miríades de guerras/e estou perdendo todas".
Quando falo que melodia e letra contrastam, quero dizer que, quem ouve a música nunca vai pensar que o assunto é uma pessoa que se sente dentro de uma guerra.Para ele, lembrar de seu amor ''e como um alívio para a dor da alma (infinita) e, ele tem que suprir essa ausência física para não ter seu corpo "dissolvido na tristeza". Usar a guerra para ilustrar o sentimento de lutar e cair por terra(estar desanimado, abatido) é outra façanha do Pal.
Vale ressaltar que esta é a versão de "May the last dance be mine" ,do Bridges . Está gravada em "Fakkeltog" ,de 1980. Oito anos depois, ganhou vestimenta nova, e entrou para o repertório do a-ha.
Na última parte, os solos de guitarra são maravilhosos ,bem como toda a música. Impossível não se derreter com Morten (em especial ao término) com a frase: "oh baby, what can we do?"

 
HURRY HOME

Voltar para casa, depois de tanto tempo fora, é algo muito importante para ele , que vem correndo ,porque já fez seu trabalho ,cobrindo campos e países.
A única coisa que poderia salvá-lo -seu amor-está em casa, sem reservas, e ele não quer negar mais o que sente por ela ,já desperdiçou essa chance uma vez. E agora, exatamente agora, "por uma vez na vida" ,está fazendo o certo: voltando para casa.
"Hurry home" é excelente ,mas o destaque fica no momento em que um pequeno coro se forma para entoar : " rolling countries.../fields unfolding/I swear the winds are calling". As vozes: Pal, Mags e Morten. É uma música que usa e abusa dos arranjos, dando a impresão de um som mais "cheio". A introdução é perfeita , assim como as "viradas" que acontecem depois da introdução e antes do coro. Demais.

 
THE LIVING DAYLIGHTS

Tema do 18º filme de James Bond---007 Marcado para a Morte--, "The living daylights" escalou as paradas do planeta , arrecadando para o filme 190 milhões de dólares no mundo todo. E, para a trilha de um filme de aventura , Pal Waaktaar (na companhia de John Barry, famoso maestro inglês que convidou o a-ha para este trabalho) escreveu uma letra na qual se insere no ritmo agitado do agente secreto.
"Ei, motorista, para onde estamos indo? Juro que meu nervosismo transparece/Colocaste tuas esperanças altas demais/O modo como vivemos é o modo como morremos". Dentro desta filosofia, nas vivas luzes do dia, apenas ele é culpado e pode ser perseguido, ao contrário de estar na escuridão, na qual pode se esconder.Em um milhão de mudanças, tudo é o mesmo. Dentro de sua longa espera, a escuridão é o que importa: "salvem a escuridão, não deixem-na desaparecer".
"The living daylights" tem duas versões : a do filme, tocada ao vivo( a mesma do clip) e a versão de "Stay on these roads" , que supera a do filme ,talvez pela instrumentação mais precisa.
"The living daylights" também foi tocada pela "London Starlight Orchestra". Só que Pal, Mags e Morten fazem melhor do que uma orquestra inteira. Mesmo tendo ficado feliz em ter feito a música para o filme, o a-ha achou a experiência estranha e não saberia se repetiria o feito.Em 2001,a maior produção Hollywoodiana estrelada por Michael Douglas teria por trilha principal uma música de nome "Velvet",tocada por um certo a-ha...

 
THERE'S NEVER A FOREVER THING

Fala de consolo . Alguém que sofreu algum abalo está sendo consolado e terá o apoio incondicional dele, bastando avisar para que ele venha e fique junto :"Deite bem recostada ,deixe as luzes acesas/está tudo bem, querida/Por toda a noite estarei aí/Com você até os primeiros sinais de luz/É só você dizer e eu virei..."
Dentro de todo esse clima confortante , acompanham tranquilidade do som e sua bela melodia.

 
OUT OF BLUE COMES GREEN

Desabafo aos pais sob forma de carta ,contando sua vida de "asas cortadas" , os "passos que o fizeram tropeçar" e que o levaram à solidão daquele momento ,em que ele está só com ele mesmo.Ele reflete sobre o tempo que não passa nunca("mãe, a chama congelada do tempo parece persistir na chuva, segurando apenas a mim") e , trabalhando muito ,pensa nos pais como um conforto -mesmo sabendo que um dia pode perdê-los ,o que faz "parte da vida". Um dia, terá que se conformar em estar mesmo sem eles.
Porém, mergulhado na solidão, ele encontra a esperança em si, no verde de seus olhos. Se seus olhos viram (do azul vem o verde) para melhor, sua vida também pode mudar.
A 2ª faixa mais longa do cd , com 6:40min , é bastante instrumentada, com o baixo se sobressaindo aos demais instrumentos. Uma música totalmente introspectiva que lamentavelmente o a-ha a cortou dos shows -é uma das melhores e mais importantes.

 
YOU ARE THE ONE

Uma letra com sua pitada de romantismo ,mas Pal tem talento suficiente para não ser sentimentalóide nem piegas. O próprio ritmo da música não combinaria com uma letra pegajosa demais, então a saída foi demonstrar mais com ações o que é amar alguém -ainda que haja de fato uma declaração explícita: "te amo mesmo, do jeito que você me quiser, seja qual for".
Ele liga e ninguém atende, luta e não sabe se vai vencer, escreve cartas ,não deixa de se importar. Realmente, muitas vezes as ações valem muito mais que palavras...
A versão remix é ótima ,melhor que a original. Cada uma delas está num cd : a primeira ,em "Headlines and Deadlines -The hits of a-ha" e a segunda aqui em "Stay..."
Se o a-ha não toca "You are the one" nos shows é reclamação certa. Aqui no Brasil pelo menos, o chiado foi geral. Só que o a-ha não toca mesmo esta música nos shows. Quem quiser ouvir, tem que curtir nos cds.

 
YOU'LL END UP CRYING

Novamente o maravilhoso Pal é o autor da letra. "Você vai acabar chorando com os olhos de sua mãe"...O cara é um artista!
Esta é uma canção que fala de uma filha que, de tão mimada pela mãe, não sabe se encontrar como pessoa ,não sabe o que quer tampouco sabe enfrentar a vida de frente. Tudo porque foi "educada nos braços da mamãe" e, perdida demais em seu amor, não saberá sair disso sem...chorar.É aquela história dos filhos super protegidos que não conseguem assumir uma identidade própria, ser eles mesmos. E, como se não bastasse toda a insegurança que os cerca, quando aprendem a escalar, escalam para cair.
Ouvir Pal e Morten num dueto é uma surpresa para esta faixa elegante que combina baixo e saxofone.